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Entrevista com os Professores Paulo Mateus e Vítor Rocha Vieira sobre o tema “Computação Quântica”



seo-automated--building-1 no âmbito da cadeira Expressão e Comunicação (Licenciatura em Engenharia Informática – FCT/UNL) por Eduardo Beja Martins e André Oliveira.

Transcrição:

[Eduardo Beja Martins (EBM)] Estamos a 22 de Novembro de 2010, à entrevista com o Professor Paulo Mateus e com o Professor…

[Professor Paulo Mateus (PM)]…Vítor Rocha Vieira

[EBM] …Vítor Rocha Vieira, sobre o tema “Computação Quântica”. Bem, vamos começar pelo início: vamos começar pelo mais básico, pela própria definição de Computação Quântica. A definição que nós temos, peço que nos corrija, se estamos em erro, é um processo de tratamento de informação, de computação, que se baseia em fenómenos da Mecânica Quântica, tendo principalmente em conta os princípios básicos da Mecânica Quântica: o Principio da Superposição, da Incerteza e da Dualidade Partícula-Onda, correcto?

[PM] Bem, quer dizer, o que acontece é que a Mecânica Quântica é uma teoria da Física com uns quantos postulados. É assim, eu sou matemático, os físicos têm uma visão diferente. Para mim, a Física, a Mecânica Quântica tem um conjunto de postulados que dizem é que se comportam os fenómenos físicos. Perante esses postulados, ecoa pela dinâmica… eu não… esses, alguns dos que tu falaste, para mim são consequências desses postulados, digamos assim, não são a base da Mecânica Quântica, mas talvez aqui o Vítor Rocha Vieira me possa dizer. A Dualidade Onda-Partícula… quais é que foram os três que tu disseste? A Superposição, isso é um dos postulados, podia ser visto como um dos postulados, esse sim, e qual é que era o outro?

[EBM] O Principio da Incerteza, da Dualidade e…

[PM] O Principio da Incerteza poderíamos pensar que era mais uma postulado da medida, mas não é bem… Eu diria que o que estás a dizer aí é uma parte da Mecânica Quântica, que não é toda a Mecânica Quântica que é relevante para fazer computação, portanto há quantro postulados básicos para fazer computação e há um quinto que tem a ver com o Principio de Exclusão de Fermi, que não é tão… Pauli, peço desculpa, de Pauli que não é tão relevante. Mas o primeiro é esse do Princípio da Superposição. O segundo para mim tem a ver com a composição de Sistemas Quânticos, definida pelo produto tensorial, como é que a gente compõe vários bits quanticamente ou “quantum bits”, digamos assim, ou o que for. Depois tens, como é que evolui, OK? Que é o terceiro postulado, que há uma equação de Schrödinger e depois, discretamente sais com a distribuição uniforme e finalmente tens o Postulado da Observação que é o “como é que tu olhas” e o “como é que tu tiras informação de um quelho. São estes quatro que são essenciais para definir. Portanto são quatro postulados: Observação, Evolução, como é que se compõem sistemas por sistemas mais simples e depois o Principio da Superposição que é o sistema simples, digamos assim.

[EBM] Nesse caso, aproveitávamos também um pouco para o Professor, se pudesse dar uma noçãozinha de como é que se passou da Mecânica para a Computação propriamente dita.

[PM] Da Mecânica Quântica, espero que tu digas. Portanto, eu acho que isso é uma coisa histórica. O que se verificou foi que havia fenómenos da Mecânica Quântica que não se conseguiam simular classicamente. Aliás, os físicos já repararam isso e é uma área de investigação, sistemas de Física Quântica, tentar arranjar soluções que não se conseguem simular classicamente e portanto, uma pessoa inverte-se. Se não se consegue, isto foi uma pergunta, se não se consegue simular, porque é que não se faz ao contrário? Não se usa antes os fenómenos quânticos para se fazer computação. Essa foi a primeira observação. Isso é um das motivações, talvez física. Outra motivação vem da própria nanotecnologia, não é? Nós estamos a dividir, a dividir, a dividir a matéria para representar em cada vez menos matéria um bit. Ás vias tantas, tens de ir ao limite possível, não é? Que a gente não pode dividir a matéria ad nauseum, chegas ao limite em que representas um bit num spin de um electrão ou de um fotão, da posição de um fotão. Quando chegarem aí, as coisas já não funcionam só com 0 e 1. Utiliza-se uma outra, esses princípios da Mecânica Quântica têm valor e portanto, o que acontece é que é preciso ter esses fenómenos em linha de conta para fazer computação. Por outro lado, como esses fenómenos permitem fazer computação melhor, não me parece que seja óbvio que a gente se restrinja a fazer computação clássica, não é? É mais isso.

[Professor Vítor Rocha Vieira(VRV)] E mesmo para isso dizer, os sistemas estão a ficar cada vez mais pequenos, e portanto há um limite em que se vai ter de entrar em conta com a Física que, de facto, rege os mecanismos a essa escala… a Física a essa escala. Porque a informação é física, não é? E portanto nós temos de usar o meio físico, portanto material, para armazenar a informação ou para tratar informação, e portanto, a fazer uma miniaturização continuada, cada vez maior, há uma altura em que vamos encontrar, de facto, o limite da Mecânica Clássica. Por outro lado, como cá já foi dito, o Principio da Superposição torna possível, digamos, uma composição paralela e torna possível algoritmos que são muito mais poderosos, apesar de, de facto, neste momento ainda não existir computador quântico.

[PM] Exactamente! Portanto, parte-se daí, são… vem da motivação general de um lado. Por um lado é fazeres computadores mais rápidos. Por outro lado é o limite: o que é que tu podes fazer de maior… mais rápido e mais eficiente possível? Qual é que é o limite da computação? Como a computação tem de correr no meio físico, os limites das leis da Física regem o limite da computação. Uma pessoa se quer fazer o melhor computador do Mundo, tem que se limitar ao que a Física dá. Tu não podes computar para além do que as leis da Física te permitem.

[VRV] A Lei de Moore incidia que, de dez em dez anos, ou o que é, há uma duplicação…

[PM]Não, era de ano a ano, a lei de Moore, antigamente, coitado do Moore.

[VRV] Nós estamos rapidamente a chegar a uma dimensão em que as coisas são cada vez mais pequenas, não é? E aliás isso é realmente espantoso porque, à uns anos atrás, desde o choque electrónico até às nanotecnologias, portanto, sistemas a duas dimensões e a uma dimensão, pontos materiais são algo em que realmente é preciso compreender e aplicar directamente isso.

[EBM] Certo, então, neste caso, a Mecânica… a Computação Quântica um maximizar, digamos assim, a todos os níveis: desde o nível do processamento, da estrutura do pensamento, do algoritmo e até do tratamento da informação?

[PM] A estrutura do algoritmo é independente.

[EBM] É independente?

[PM] é independente, o algoritmo… O algoritmo, o que nós estamos a dizer é que o meio para fazer a computação é um meio diferente do meio clássico. As pessoas abstraíram o que é um computador e… mas na prática é um computador que tu usas classicamente, representa um bit com uma voltagem. Se está acima de um verto volt é um, se está abaixo é zero. E, portanto, há uma abstracção de uma maneira de fazer o computador. Agora, o que acontece é que, o que tu vai usar é um meio diferente para guarda informação, e esse meio tem propriedades diferentes do meio clássico que agente está habituado. E portanto, a partir dai, os teus algoritmos podem correr nesse meio tal como estão, não há problema nenhum, mas tu podes usufruir das propriedades do meio, desde o Princípio da Superposição e do Paralelismo Quântico para fazer computação mais rápida, e há caso de… Portanto há dois algoritmos essenciais: um que é o Grover que consegue fazer uma aceleração quadrática (a algoritmos de pesquisa) e o algoritmo de Shor que consegue factorizar, e não só, calcular o algoritmo discreto…, em tempo polinomial, que não se consegue classicamente. Esses são os dois grandes algoritmos quânticos. Um que mostra que se consegue fazer uma pesquisa de uma solução qualquer, com uma aceleração quadrática face a um computador clássico, que é um limite que mostra que há casos em que só assim é que se consegue fazer, digamos assim, sem mais inteligência nenhum, nós conseguimos acelerar quadraticamente a pesquisa, digamos assim, com um computador quântico. E o Shor, que é uma outra técnica que se baseia no facto das propriedades algébricas que estão inerentes nos complexos (que depois a Mecânica Quântica utiliza o sistema de Hilbert complexo com assuntos complexos, e, portanto, os complexos têm propriedades algébricas interessantes que têm pacto a explicar a Interferência e por aí fora…). E, portanto, esses fenómenos algébricos que são usados para explicar a Interferência, são explorados para fazer algoritmos de factorização, classicamente não se conseguem fazer eficientemente. Não se sabe se não se conseguem fazer.

[EBM] Certo, o Professor falou que podemos abordar outro tipo de problemas que não se sabia… que computacionalmente não se abordam, correcto?

[PM] Como assim? Não percebo. Não é que computacionalmente não se abordam. As soluções clássicas são é mais lentas, podemos dizer assim.

[EBM] Portanto é uma nova abordagem…?

[PM] Não, o que acontece é que dado que os meios de guarda informação e de calcular são diferentes, tu podes usufruir desses meios para fazer computação mais rápida. OK? Portanto há algoritmos clássicos também para resolver esses assuntos. A questão é que dado que tu agora guardas informação, em vez de ser um bit, é num quantum bit, e vários quantum bits, tu podes explorar esse facto para se fazer aceleração e os algoritmos têm de ter em conta o meio onde está guardada a informação, para fazer a computação, é só isso.

[EBM] Então e pensando naquelas soluções tradicionais que se estimava que o tempo era demasiado longo para ter uma solução aceitável…

[PM] Alguns desses problemas consegues resolver. Para já resolvem-se todos os problemas de Sistemas Quânticos que são interessantes na Física. Porque estás a usar Mecânica Quântica, também podes usar esses… Por um lado, tens essas aplicações quânticas e por outro lado, tens aplicações que não são na Física e o exemplo mais urgente é exactamente a factorização. Quer dizer, a ideia… factorização, e outros, percebes? … Factorizar, calcular o algoritmo discreto, calcular… em particular, a criptografia colapsa quase toda. Portanto, toda a criptografia clássica, de chave assimétrica, colapsa se existirem computadores quânticos. Não existem… todos os stadards aceites pelo National Institute of Standards and Techonology, que são o RSA, o algoritmo discreto… todos esses standards colapsam todos se existir um computador quântico. Eles são capazes… um computador quântico consegues descobri-los em tempo cúbico.

[EBM] Nesse caso, imaginemos que… [quebra de video][tinahmso uma evolução] bastante rápido em termos de Computação Quântica, em termos de hardware…

[PM] … era uma problema! Não conseguíamos fazer mais remote login. Em particular, o remote login passava a ser atacado. Não podias fazer remote login no Google ou “Faicebook”… Acabava-se o Facebook, acabava-se o “GuêMail”, o GMail… o remote login é feito nesse formato, não é? Ti tens de ter uma chave. A comunicação em que tu mandas um password é feita por uma coisa assimétrica, por uma chave assimétrica… portanto tu tens os HTTPS baseado ou em RSA ou o que for, e portanto a única solução para dar a volta a isso é teres uma chave simétrica pré-definida á custa de uma pessoa… ou seja tens de ir a um certo sitio uma chave. Isto não destruía, por exemplo, nem o E-Banking, que tu podes ir ao banco e o banco dar-te um Blu-Ray cheio de chaves e tu ias consumindo essas chaves à medida que ias fazendo os logins, nem destrói o E-Governmend, que tu podes ir ao posto fiscal buscar a tua chave. O que destrói é o SSH, ou destrói qualquer tipo de comunicação, na qual tu não podes partilhar a priori uma chave, como por exemplo uma ligação ao Facebook. O Facebook naõ tem uma instituição física, pelo menos em Portugal, onde tu podes ir buscar um DVD… a não ser que ele mandasse para quinhentos milhões de pessoas DVD’s com chaves, o que não me parece que seja muito barato… Portanto, esse tipo de efeitos são…, se vier um computador quântico são muito maléficos. E por isso é que a criptografia está nervosa, como é óbvio.

[EBM] Em termo de… já há sistemas em que se pensam que podem substituir os sistemas actuais?

[PM] Não há nenhum sistema… bom para substituir os actuais. O único sistema é usar criptografia quântica também, é usar comunicações quânticas também, mas isso realmente é mais fácil do que fazer computação quântica, por acaso, basta fibra óptica. Portanto, eventualmente terá que se fazer partilhas de chaves por fibra óptica. Mas é muito difícil fazer networking, é muito fácil fazer peer to peer mas networking é muito difícil. Fazer… redireccionar é muito complicado.

[VRV] Os repetidores…

[PM] É repetidores, redireccionar, é muito complicado. Fazer uma ligação daqui para ali, consegue-se fazer, agora… mas também está limitada fisicamente por cem quilómetros. Portanto, essa é a única assim viável á primeira vista.

[EBM] Então e tirando, pronto, a situação da transmissão de dados, do RSA, que… no eventual lançamento de um computador quântico, quais serão as principais revoluções imediatas que se notariam?

[PM] As revoluções imediatas, bem a criptografia é uma parte muito grande, as pessoas deixarem de poder aceder ao Facebook, aumenta a produtividade, acho eu, nas pessoas, não sei… Talvez não… Por outro lado há toda uma maneira de comunicar na internet nesses músculos que vão á vida. O que acontece é que, se chegasse um computador quântico, também não é um computador ou dois que se faz. Primeiro que seja mass marketable, vai demorar muitos anos, mas isso também aconteceu com os computadores clássicos. Ainda há um estudo inglês que dizia “quantos computadores é que Inglaterra precisa?”, “Ah, cinco.”, não é? Portanto, quando os computadores apareceram, pensava-se que ia aparece um computador por cada país. Depois é que se verificou que os computadores massificaram e a coisa ficou como está. Portanto, os computadores quânticos estão, se mesmo a aparecerem, pensa-se que vai ter que ser uma coisa deste formato. Primeiro que se consiga ter um computador, tem que haver muita evolução na Física, estamos a falar da nano… é difícil, porque as leis da Física são complicadas de bind, não é? Mas também… também na altura, também na altura, tinha pensava-se num terço, pensava-se no transístor, e por aí fora, houve aqui uma breakthroughts que revolucionaram a coisa paço a paço. Primeira que se chegasse lá… os primeiro computadores eram feitos com válvulas e por aí fora, que ocupavam o tamanho de uma lâmpada, ocupava salas, não é?

[VRV] O primeiro bug era físico.

[PM] O primeiro bug foi um avião… exactamente, foi um bichinho que andou lá no computador. Nós estamos nesse nível neste momento. Estamos a pensar fazer protótipo desse nível. E portanto ninguém tem ideia nenhuma, para já, de como monitorizar isso. E portanto, se houver poucos computadores quânticos, na prática para as massas, é pouco relevante. A única que acontece, é que a gente sabe, quem tiver o computador quântico, consegue ver tudo o que tu mandas, é clean, não é?

[VRV] E o problema fundamental é quem está a usar o monitor.

[PM] Exactamente.

[VRV] Quando as datas passaram para um transístor, fica mais pequeno. Com o circuito integrado, começamos a por as coisas todas juntas.

[PM] Exactamente.

[VRV] E o problema aqui é que nós podemos por alguns qubits, mas passar de alguns parar muitos, muitos, muitos, é…

[PM] Não se sabe fazer.

[VRV] Porque de alguma medida, a ligação ao…

[PM] …meio exterior…

[VRV] … ao meio exterior, por alguma medida também…

[PM] É, é muito difícil, é preciso que eles evoluam de uma certa forma, para que nós garantirmos não estar a estragá-los, depois têm-se que estar a corrigir uns aos outros. Não é fácil, neste momento. Mas isso é uma área de experimentalismo, não é? Da física experimental. Não é uma área da Matemática, nem da computação. Agora já há pessoas a fazer algoritmos para um computador que não existe. Portanto, outra coisa que acontecia também na prática é que é um facto que a maior parte do informático não está habituado a lidar, nem tem a mínima ideia do que será um computador quântico, nem gosta da matéria que está relevante a programar um computador quântico, porque, essencialmente, do ponto de vista matemático, do ponto de vista espectral, tem a ver com… tem a ver com Álgebra Linear, Álgebra Linear sobre corpos complexos, OK? Que é uma parte que os engenheiros informáticos aprende, detesta e esquece. Pronto, que ao fim do terceiro ano já sabe quase zero, e portanto, quando chegar ao fim do curso, se tiver com trinta e sete anos ou trinta e oito, se aparecer um computador quântico, vai ter muita dificuldade a programá-lo. E se querem entender o que se está a passar…, porque não é um breakthrough como passar do Java 1.5 para o Java 1.6. É mesmo a revolução paradigmática da programação.

[VRV] Sim, mas o que é preciso é que há algum jogo, basicamente.

[PM] Sim, mas as pessoas não gostam… mas eles não acham que para programar seja preciso álgebra Linear, isso para eles é um choque. Ninguém imagina que para programar é preciso Álgebra Linear. Portanto, isso é umas das razões que se faz… é difícil de programar um computador quântico, se surgir o computador quântico é que o número de pessoas… o número de pessoas que consegue dominar os conceitos de complexão computacional, de espaços de Hilbert e por aí fora… e da Física é limitado no Mundo. E está só no nível académico. Quer dizer, há uma ou duas empresas, há a QuDreams e não-sei-quê no Canadá que supostamente contrata muito investidores nessa área, mas ainda está no início do início.

[VRV] As grandes empresas, género IBM ou outras que sejam assim…

[PM] Sim, há investigação nessa área, eles põem dinheiro na Computação Quântica, mas…

[VRV] Mas não empresas especializadas, mesmo. Ou Bell Labs ou assim. Ou então são pela Universidade.

[PM] É a Bell Labs, há… há empresas a investir nisso, com certeza, de ponta, mas… mas estamos a quilómetros… ainda estamos a muito tempo. Se a tecnologia aparecer, é um breakthrough muito significativo. Era uma coisa necessária, mais ou menos equivalente, para mim, a ter aparecido a Internet. Estás a ver? Quando apareceu a Internet houve um boost gigantesco na computação. Vocês são… eu sou do tempo em que apareceu a Internet, em que vi aparecer a Internet, não é? Aquilo deu um boost enorme, muito dinheiro veio para a computação, e deu muito dinheiro, e deu não-sei-quê. Se viesse um computador quântico, diria que era… é uma revolução económica semelhante. Mas não é óbvio que vá acontecer. Pelo menos no próximo tempo, também para salvaguardar…

[EBM]… o RSA.

[PM] Não é o RSA, mas as funcionalidades que nós estamos habituados, não é? Nós estamos habituados a um conjunto de funcionalidades que vamos perder se ver um computador quântico, não é só um mar de rosas.

[EBM] Já agora pode elaborar um bocadinho nessa…

[PM] Não, é isso que eu estou a dizer, as pessoas já estão habituadas a fazer… a portanto, a achar que têm alguma privacidade inerente, não é? Em particular, por um lado as pessoas não estão habituadas a esta nova entidade, “o que é que é programar para um computador quântico?”, portanto, por um lado temos programação, que tem esse lado estranho, e por outro lado, tem outro factor que é… tem outro facto que é o facto que é aquilo ter algum impacto no comércio electrónico. No comércio electrónico, portanto, neste tipo de.. de social networks, e por aí fora e… e isso é complicado, porque a economia já está mal, se a gente acaba com o e-commerce, se calhar fica pior, não é? Não se esqueçam que a Amazon deixa de poder vender livros, porque ninguém vai querer por um cartão de Visa, sabendo que uma pessoa com um computador quântico vai tirar. Portanto isso acaba com as empresas baseadas… as últimas empresas baseadas que saíram da Internet, não é? A Amazon, o Facebook, o Google… o Google que ganha muito com o GMail, apesar de que muita gente faz pesquisa sem querer saber se é privada ou não, mas temos um e-mail, temos uma calendário, temos uma série de coisas, tudo isso desaparecerá. Se vier um computado quântico massificado, aqui desaparece, de certeza absoluta. É preciso… é preciso revolucionar também a criptografia, o que ainda estamos a muito tempo de fazer isso, ainda não está feito. Mas isso também cria dinheiro, portanto é uma oportunidade, agora não sabemos, pode ser que um computador quântico nunca apareça, nem daqui a quarenta anos, pode acontecer. A fusão nuclear, é, como eu costumo de dizer, uma piada, também já está prometida há tantos anos que se tenta fazer, tenta fazer, nunca mais se faz. Um computador quântico pode ser um fenómeno muito semelhante. Está-se sempre a tentar, a tentar, e nunca se consegue, realmente, fazer muito mais além de vinte qubits. Outra hipótese é pensar que limite de computação se pode fazer com uma memória muito finita de quântica. Portanto, pensar assim, que é uma coisa que não… que pode mesmo ser impossível fazer mais computação que cem qubits. Coisas assim do género. Depois é preciso perciso perceber, “o que é que eu consigo fazer com cem qubits?” e, portanto, tentar fazer a computação restrita, restrita numa memória muito pequenina. E portanto, isso ainda é outra área da investigação.

[André Oliveira (AO)] Há investigação, nessa área, actualmente, internacionalmente?

[PM] Há investigação, claro que sim. E nacionalmente também. Aqui no nosso grupo, fazemos investigação nisso.

[AO] Pronto, essa era outra pergunta. Que é até que ponto vão nessa investigação, que investimento é que têm feito?

[PM] Portanto, o nosso investimento aqui no Técnico é teórico. Portanto, num sentido é estudar que algoritmos é que podem ser propostos, estudar a limitação, mas na prática, o meu grupo é mais especializado em protocolos, portanto, em comunicação quântica. Comunicação quântica já existe. Portanto, isso já há tecnologia, já se pode fazer com fibra óptica, já em Aveiro temos uma laboratório que manda… que manda qubits por aí fora e temos protocolos propostos e fazemos. A computação em que nós temos feito, exactamente, mais investigação é na limitação, supor que temos um número finito de memória, e isso chamam-se autómatos quânticos e temos feito bastante trabalho, conjuntamente com aquele senhor que apareceu aí, Daowen Qiu da China em como é que se pode minimizar. Temos um resultado, resolvemos um problema em aberto que tinha dez anos, que é como é que se minimiza um autómato quântico, que é sabes qual é o autómato quântico com menor número de memória, menor número de qubits necessário para fazer a mesma coisa, que é importante, porque, exactamente, a gente quer minimizar os estados, para ter o mínimo número de dimensão de qubits necessários para codificar, é termos o algoritmo… mostrarmos que é decidivel, que é feito em x-space, o que é muito mau, mas ao menos dá uma ideia de como é que…

[AO] Depois cooperam com outras… com outras organizações?

[PM] Cooperamos com certeza, cooperamos. Temos uma colaboração com experimentalistas em Aveiro, tenho colaboração com pessoas no Brasil, tem colaboração com a Física. Tenho estado aqui com pessoas da Física, dentro do próprio Técnico, cooperação internacional, pronto. E isso é o natural, em Portugal já está tudo… já é assim em todo o lado. Já é o standard.

[AO] De resto, assim para finalizar, o que é que, na sua opinião, são os benefícios principais e os malefícios, por assim dizer?

[PM] Acho que já falámos mais ou menos disso. Pá, os benefícios principais é que eu acho que seria uma revolução que iria voltar a trazer muito, muita investigação, muita industria back, que neste momento está muito afastada e muito na direcção das farmacêuticas, com todo o respeito, mas está muito mais na área da Medicina, afastou-se muito. Quando houve a Internet, houve um grande boom na investigação, da computação distribuída… e muitas coisas aconteceram, mas depois houve agora, quando houve aquele crash de 2001, aquilo parou um bocado e voltou-se muito… as pessoas voltaram-se muito para as ciências da vida, que neste momento dominam muito monetariamente a coisa. Se houvesse, realmente, o computador quântico, um grande coiso… é que… uma grande… acho que o máximo que aconteceria é que voltaria a haver muito investimento outra vez nesta… na área da computação, o que é positivo, o que seria positivo, para toda a gente. E portanto haveria um boom, empregos, criação de empregos, é uma mudança. Um breakthrough tecnológico é sempre uma coisa positiva, não é? Como a Internet foi um breakthrough tecnológico, OK?

[AO] Pontos negativos para além da criptografia?

[PM] Pontos negativos? Não vejo nenhum.

[AO] Aplicações militares, se calhar ou…
[PM] Não vejo, não vejo que aplicações militares possam ter, a computação Quântica é para resolver problemas, quer dizer, que aplicações militares é que poderiam ter? Não vejo.

[AO] Como falo em aplicações militres falo noutra….

[PM] Não vejo, não vejo nenhuma negativa a não ser o facto de que realmente é necessário que a criptografia colapse. Isso é a grande coisa negativa. Por outro lado, o que pode acontecer também… outra coisa que acontece é que esta… nós já estamos habituados que o conhecimento e as tecnologias estão divulgadas já, mais ou menos, homogeneamente pelo planeta, não é? Desde que há Internet, a pessoa acede à… agora, se um computador quântico existir só em três ou quatro países ricos, não é? Isso vai criar um poder que os outros não têm. Tanto pode aumentar a desigualdade nesse sentido. Isso é a única coisa que pode acontecer, mas também, já se pensou com os computadores e depois isso não veio a acontecer com a massificação. Se não for uma coisa que vai massificada, pode dar muito poder às pessoas que os tenham. Isso é a vida, também nós temos aqui o CERN e não há mais nenhum CERN, como o CERN que está aqui, não é? Há uns aceleradores nos Estados Unidos, mas não são tão bons, não é? Portanto não…

[EBM] Mas o CERN… CERN é partilhado entre várias…

[PM] Sim, mas é europeu, não é? Portanto, supostamente, a gente gastou aquele dinheiro todo para ter ali uma investigação que possa… que possa dar benefício às pessoas que usufruem dela, não é? Não é universal. Quem pagou, extrai. Sé que, se for uma coisa género CERN, em que só há um computador no Mundo ou dois e uma coisa assim, isso quem tem o computador, é quem é capaz de o usar, não é? Mas depois não… depois é uma coisa privilegiada das pessoas. Isso pode criar desigualdades se, não é? É o único malefício que eu vejo, para além de que… para além do facto de acabar com toda a criptografia. Isso é que é o grande malefício… standardizado. OK?

[EBM & AO]OK, obrigado mais uma vez.

[PM] Pronto, adeus! Acho que está.

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